sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Muito tempo pra nada

Sacudindo a poeira deste espaço, vai um exercício de análise semântica. Quero analisar um termo muito utilizado como subterfugio e que tem muita gente que pensa que não diz nada, mas que na verdade, diz muito mais. Pensando bem, o termo é exatamente o contrário do que pensam dele. E eu estou usando períodos curtos demais. Em excesso, diria. Curtíssimos. Mas não vem ao caso. O termo utilizado, que quer dizer exatamente o contrário do que a maioria das pessoas pensam e que expressa muito mais do que aparenta, constrói um axioma aparentemente vazio e que só é utilizado para fins de humor, não o líquido nem o aquoso, mas o humor rísido, é um do qual não sou a favor, nem contra, muito antes pelo contrário. Espera. Vou mudar o termo. Acho que este que falei há pouco é muito mais significativo e encaixa perfeitamente no que havia comentado antes, neste mesmo parágrafo, mas em período anterior, o que me poupa tempo de ficar revisando e substituindo expressões e procurando soluções, além de ficar melhor. Analisemos então o termo "nem a favor, nem contra, muito pelo contrário.". Vamos à análise, antes que o leitor canse da leitura. Aliás, duvido que alguém continue lendo este blog. Em todo caso...
A expressão em questão, baseia-se em duas lógicas. A primeira delas é de contrariar duas situações antagônicas: ser a favor ou ser contra. Parte do ponto de vista do gaúcho tradicionalista, aquele que acha que ou se é de direita ou se é de esquerda, não existindo nada além disso. Nem falo em futebol, porque isso é uma coisa que muito me irrita nesse estado pretensamente bipolarizado. É a visão de que só do outro lado é que é uma ditadura. Tem gente que ama o Pinochet, dizendo que ele "fez uma limpa no Chile" e odeia Fidel Castro porque "é um ditador", e vice-versa. A segunda questão é exatamente a contrariedade disso. É dizer: no RS não existe só aqueles que jogam de pijama e aqueles que são um balcão de negócios de carne humana. Muito pelo contrário: existem aqueles que suam a camiseta, especialmente no interior. Existem índios valentes, milhares de apaixonados índios valentes. Mas isso é desprezado pela mídia pra impor uma pseudo-dicotomia. Mas vamos a um exemplo mais claro, pra não vincular apenas a um espaço. Vejamos a questão do desarmamento, do ponto de vista de quem quer diminuir a violência, o que engloba uma parcela considerável da população mundial.
Ser favorável ou contrário, pouco importa. Existem diversos argumentos que podem servir tanto a um lado quanto ao outro. O que diferencia tudo é o objetivo em se ter uma arma. Quem tem uma com o pretexto da defesa, é um violento em potencial. Esse tem a vontade mesmo é de usar o instrumento. São as pessoas que acreditam que a propriedade é o suprassumo da felicidade* e estão dispostos a matar "pra garantir o que é seu". De outro lado, não ter arma por julgar que ela é culpada pela violência também é um erro. Quem tem vontade de matar, mata com as mãos, ataca em bando, atira pedras ou envenena. Existem muitas maneiras de fazer isso. Não é a existência da pólvora que transforma o mundo em carnificina. Muito pelo contrário. O "muito pelo contrário" é exatamente isso: procurar um outro ângulo menos obtuso. O "muito pelo contrário" provém de quem quer dizer que alguém poderá ter uma arma como peça decorativa, mesmo que seja uma decoração de mau gosto. O que conta é a existência de um dedo no gatilho e não o fato de existir um gatilho.


* Citar a questão da propriedade me fez lembrar que muita gente adora falar no clichê "ter e não ser". Este blog acaba de banir tal expressão pro bem de manter a paciência do blogueiro dentro dos limites possíveis.

2 comentários:

Leonardo Alves disse...

Eu não tinha parado para pensar nessa expressão como forma de subverter o vetusto maniqueísmo.
Muito inteligente teu texto. parabéns.

otário disse...

Tem várias expressões que significam muito mais do que parecem. Mas a gente costuma vê-los como simples jogos de palavras. Tanto é assim que eu levei 36 anos da minha vida pra pensar nisso.