domingo, 7 de novembro de 2010

Meta-se na ficção: metaficção

Sempre quis ser escritor. Desde a infância inventava histórias (o termo "estória", pro meu gosto, é apenas um fabuloso neologismo do Guimarães Rosa). As minhas sempre eram contadas como se fossem reais, assim com são escritos os livros de história da escola. Então eu procurava ser o mais verossímel possívil, digo, veromíssil povíssel, ou melhor... melhor deixar pra lá. Sempre procurei deixar os fatos contados com jeito de fatos reais. Buscava fazer com que os meus ouvintes acreditassem mesmo que havia acontecido certa vez na casa de um tio que morava na fronteira com o Uruguai ou quando aprendi a nadar por ter sido deixado, sem querer, pelo meu avô, em terra firme enquanto ele e meu tio saíam de barco pra pescar e que fui nadando até a embarcação, coisa de uns cinco metros. De fato, tinha tios que moravam na fronteira com o Uruguai, mas não ocorriam histórias malucas pra serem contadas numa roda de amigos. Além disso, aprendi a nadar numa praia de lagoa, em que a profundidade mal chegava a deixar a água molhar o saco. Mas a maneira com que contava as histórias, sempre procurando torná-las críveis, é que acabava sendo interessante, mesmo que meus amigos desconfiassem do teor de verdade em cada uma delas. O que lhes importava, acredito, era que tudo parecia real e rendiam boas risadas ou mijo na cama.
Assim iniciou minha carreira de escritor. A carreira de um escritor que ainda não conseguiu concluir um conto sequer, muito menos publicar algo em livro. Mas creio que isso não me tira o caráter de escritor. Invento histórias e as escrevo e isso é o que importa. Evidentemente, em respeito aos leitores deste espaço, não as publico aqui. Quem sabe algum dia eu as consiga concluir e publicar em formato impresso, pra ser lançado em feira do livro ou coisas do gênero. Além de escritor, também sou pretensioso crítico literário. Digo pretensioso porque, embora especialista certificado na área, sei que ainda tenho muito chão pra andar e muito livro pra folhear. Minha especialização, portanto, é em Literatura Comparada. Nessa área, o importante é analisar alguns aspectos de determinada obra e observar como se relaciona com outra ou com outras áreas do conhecimento. Pra demonstrar um pouco como isso funciona na prática, resolvi fazer uma pequena análise usando duas obras externas à literatura, ainda que narrativas e adotando apenas alguns aspectos. Escolhi analisar "Saneamento Básico - O filme", de Jorge Furtado e "Os Simpsons - O filme", de Matt Groening. Alerto, no entanto, o leitor, que será uma curtíssima análise, na qual apontarei algumas aproximações entre a obra cinematográfica de Furtado e o desenho animado de Groening. Depois dessa crítitica que segue, tentarei contar uma das peripécias que aconteciam na casa dos meus tios. Das que realmente aconteciam, não as que inventei. Aí meus leitores saberão o quão sem graça eram os fatos que eu precisava distorcer. Mas primeiro apresento o ensaio.

Springfield e Linha Cristal: Os filmes

Um dos temas mais caros à humanidade nos últimos tempos é a preocupação com questões ambientais. As mudanças climáticas e o esgotamento dos recursos terrestres são questões que fazem com que cientistas, entidades não-governamentais, políticos e a classe artística tomem um discurso forte em torno das soluções a esses problemas.
No mesmo caminho, duas obras que chegaram aos cinemas brasileiros no ano de 2007 chamam atenção. São elas Saneamento básico - o filme, do gaúcho Jorge Furtado, e Os Simpsons - o filme, do norteamericano Matt Groening.
No primeiro, os moradores da localidade chamada Linha Cristal (que bem poderia ser qualquer povoado brasileiro) estão preocupados com um esgoto a céu aberto que causa diversos problemas de saúde pública. Para a solução do problema, a população pleiteia há muito tempo a construção de uma fossa. Para tanto, reunem-se no início do filme os próprios moradores. Porém, a narrativa inicia antes de surgirem as imagens, com a personagem Marina (Fernanda Torres) chamando o público do cinema a acomodar-se. Há um diálogo, portanto, entre a personagem e a plateia. Ao iniciarem as imagens, percebe-se que o diálogo, na verdade, ocorre entre Marina e os demais habitantes do lugar que estão chegando para o encontro.
Na segunda obra, o lago que banha a cidade de Springfield, nos Estados Unidos (o número de cidades norteamericanas com esse nome é difícil de saber, portanto, poderia ser qualquer cidade daquele país) está totalmente poluído. Nesse ponto, ocorre a primeira aproximação entre as narrativas. De um lado, há um esgoto a céu aberto que está causando danos ambientais, de outro, há um lago que já não mais suporta receber dejetos e também implica em consequências ambientais difíceis.
A segunda aproximação entre as obras ocorre quando Homer Simpson está assistindo, junto com sua família, um desenho animado num cinema, e resolve criticar o fato de alguém pagar para assistir algo que passa gratuitamente na televisão, inclusive apontando para quem seriam as pessoas que disperdiçam dinheiro até chegar a apontar para o expectador. O diálogo criado entre Marina e o público aparece de maneira diferente entre Homer e quem está assistindo ao filme, porém, pode-se afirmar que o diálogo direto personagem-público existe.
Outra aproximação interessante entre as narrativas é a metaficção. Se os Simpsons assistem desenho animado no cinema, O monstro do fosso é uma obra ficcional cinematográfica produzida e apresentada pelos moradores de Linha Cristal. Nesse filme encapsulado, a poluição no córrego gerou um monstro adormecido que é acordado pelas obras de construção de um fosso (ou fossa, conforme discussão entre as personagens) e que poderia por Linha Cristal em risco. De maneira similar, embora não esteja integrando uma "narrativa dentro da narrativa", o lago de Springfield, devido à quantidade de dejetos, cria um "monstrinho": um peixe de muitos olhos que acaba por trazer sérias consequências à cidade.
Em termos formais das obras, o destaque mesmo continua no ponto do metaficcional. De um lado, um filme sobre quem produz um filme e de outro um desenho animado sobre quem assiste desenho animado. Nesse ponto, ambos os trabalhos conseguem realizar autocrítica e discutir a validade das obras dos seus respectivos gêneros.
Existem outras aproximações interessantes e observações importantes acerca das duas obras, mas este otário deixará em aberto pra que os leitores tenham o prazer da descoberta assistindo Saneamento básico - o filme e Os Simpsons - o filme.


Agora, segue um dos acontecimentos das casas dos tios

Sempre passava as férias de verão na casa de uns tios que moravam na zona rural de Herval do Sul, fronteira do Brasil com o Uruguai. Na verdade, eram vários casais e várias casas, mas eu frequentava duas. Uma, do tio Sérgio, que ficava ao norte da estrada, mas bem próximo a ela. Nessa casa, tinha luz elétrica e tudo mais. Nessa casa que passava a maior parte das férias pois tinha o primo que era quase da minha idade. Lá, a gente não costumava aprontar muito. Geralmente, o que fazia mais era jogar futebol, imitando as defesas do Higuita ou as cobranças de falta do fabuloso Zezinho, ponta esquerda do Brasil de Pelotas nos anos oitenta ou subia em árvores pra olhar o horizonte tentando fugir da gente. De fato, nada de extraordinário acontecia. Ou tudo era extraordinário, mas só pra gente.
Na outra casa, ao sul da estrada, a casa do tio Pedro, não havia luz elétrica, mas tinha uma égua petiça da bisavó, que não nos deixava montar (a égua é que não deixava, a bisavó deixava montar - na petiça, é claro). Tinha também um açude onde minha tia criava traíras de estimação. Nele, certa vez, ocorreu um fato curioso, mas nada de extraordinário.
Reza a lenda que a tia Nida alimentava, chamava pelo nome e acariciava um dos peixes enquanto aqueciam ao sol. Todos confirmavam. Meu tio, sempre proseador, sempre contava que via tia Nida acariciando a barriga da traíra. Eu, sempre espantado, perguntava se não mordia, mas jamais a resposta era de que o bicho se rebelara contra a dona. Muitos verões após eu ouvir contar histórias da tia e sua traíra de estimação, ouvi contar uma história ocorrida com meu primo. Diz que minha tia estava atarefada em casa. Era época da choca do peixe e eu ainda estava no período letivo, estudando pra chegar à sétima série. Meu primo morava na região e estava quase todos os finais de semana nas casas dos tios, sendo que o tio Sérgio era avô dele. Minha tia estava atarefada e não viu. Meu primo, de tanto acompanhar tia Nida, resolveu ir tratar os bichos, como se diz por aqui. Levou sei lá eu o quê pra dar às traíras. Deu comida, chamou pelo nome, mas não precisava, pois era época da choca e ela já estava à beira do pequeno lago artificial, aquecendo ao sol. O guri resolveu tentar o impensável: acariciar a barriga do peixe. Primeiro, foi aproximando, conversando, jurando que estava sendo ouvido. E o animalzinho continuou ali, tomando banho de sol. Aos poucos, foi aproximando a mão da água. Claro, se tocasse primeiro na superfície, certamente espantaria a presa ou, no caso, o bicho de estimação, uma traíra de pelúcua, pensou. Então, resolveu chegar rápido e delicadamente, evitando assustar e fazer a traíra fugir. Tanto foram os rodeios que enfiou a mão, como se desse um bote certeiro para pegar um pedaço de carne do churrasco que caiu no fogo, evitando se queimar. Mas foi só o tempo de enfiar a mão n'agua e sair com o fruto da pesca no anzol formado pelo dedo. Conseguiu tirar da água uma traíra que já estava sendo criada há mais de cinco anos, o que significa um peso razoável. A sorte é que o dedo não tem fisga, por isso o peixe conseguiu soltar o dedo rapidamente ao sair da água. Mas o estrago já estava feito e o primo ficou com o dedo rasgado. Tanto que feriu o tendão e fez com que o dedo ficasse com sequela: formou-se um desvio de maneira a parecer mesmo uma fisga.
Ao mostrar o dedo do primo aos amigos, jamais conseguiria contar que foi assim. Na segunda frase, todos já estariam enjoados de ouvir. Então eu resolvia dizer que havíamos descoberto uma antiga estação férrea que era usada de depósito de agrotóxicos e que havíamos sido pegos pelos caseiros do local. Daí passávamos por aventuras que poderiam culminar com o dedo quebrado do meu primo e conseguir evitar que os produtos fossem jogados numa sanga de um lugar fictício chamado Carvalho de Freitas, divisa de Pedro Osório e Herval do Sul, sul do Rio Grande do Sul, onde hoje estaria tomada de eucalíptos para a exportação de água.

2 comentários:

Tear de Sentidos I e II disse...

Olá! O Tear de Sentidos reabriu! Aguardamos sua visita no Tear de sentidos I e II:
http://teardesentidos1.blogspot.com/ e

http://teardesentidos2.blogspot.com/

Bjuuuu! Jana, Augusto e Tê!
...............

Ah, não! Palavras de conforto?! Rsrsr!
Bj, Tê!

otário disse...

É sempre um prazer receber vocês do Tear por aqui, Tê. Esteja certa que visitarei com frequencia.
Bjs